13 janeiro 2007

Lágrima de Preta

Hoje volto à carga com o poema do mês. Deixo-vos um poema que há muito não lia, mas do qual me lembrei por motivos que desconheço. Não é do género dos anteriores... Talvez não seja nenhuma relíquia conhecida mundialmente... Mas a sua simplicidade, a sua genuinidade, é per si suficiente para me agradar. Aqui fica então uma das pérolas de António Gedeão:

Encontrei uma preta
que estava a chorar
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.

Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.

Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.

Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.

Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:

nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.