Lágrima de Preta
Hoje volto à carga com o poema do mês. Deixo-vos um poema que há muito não lia, mas do qual me lembrei por motivos que desconheço. Não é do género dos anteriores... Talvez não seja nenhuma relíquia conhecida mundialmente... Mas a sua simplicidade, a sua genuinidade, é per si suficiente para me agradar. Aqui fica então uma das pérolas de António Gedeão:
Encontrei uma preta
que estava a chorar
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.
Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.
Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.
Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.
Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:
nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.

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